DE UMA NATUREZA HÍBRIDA
Técnica mista
«Retenho ainda os mais íntimos desejos de me confundir com a paisagem»
Al Berto, O Medo (1997).
De uma Natureza híbrida é um trabalho que não se encerra em si próprio. Antes, perpetua-se no movimento inerente das coisas. Se em projetos anteriores a influência da ilustração científica assumiu uma posição de destaque, é aqui que ela termina. Como um todo, de uma Natureza Híbrida cobre a dualidade entre a dor e o conforto sobrepondo-se dessa forma a qualquer união onírica entre a Natureza e o Homem. A composição é apenas o cenário escolhido para abordar os motivos mais íntimos. Aproveita-se ainda o médium estático do desenho para congelar as ações no tempo e assim decifrar-se individualmente os elementos presentes: cada planta, cada animal, cada corpo estranho ou órgão extra, cada contorção paralisada.
BRUTA
Técnica mista | Esferográfica e tinta da China
Na Natureza nada é inteiramente claro. BRUTA constrói-se na observação de uma dualidade aceite como absoluta. Esta presença, que é transtornada pela divisão antiga do ser não-essencial perante o ser essencial, é simultaneamente fonte e referência para atuar. Se há contemplação, há evidência. Provocatória e sensualmente misteriosa, a linguagem jamais passiva de BRUTA captura um espaço mitológico associado à noção de feminilidade. A espécie ocupa-a e consome-a. Ao alcance superior da metamorfose, os elementos simbólicos da flora e da fauna selvagens colaboram no seu íntimo para relativizar a identidade humana e fazê-la regressar à escala animal. A artista apresenta-se ao público na clareza do seu perfil reflexivo. Ao exprimir-se, imprime na sua obra as questões que a motivam a produzi-la; de certa maneira, imprime-se a si própria.